Cristão, não bobão
sábado, 10 de outubro de 2026
O verdadeiro cristão e as eleições
terça-feira, 31 de janeiro de 2023
O cristão e o cristianismo
O
título deste texto pode parecer redundante. No entanto, nos últimos anos, temos
assistido aqui no Brasil o crescimento de um fenômeno que é, no mínimo,
curioso: o dos “cristãos” que se afastam do que, até então, conhecíamos como
cristianismo.
“Cristãos” que defendem o armamento,
a intolerância, o extermínio do outro, a morte, a miséria, a ignorância... Há
pouco vimos um país sendo dizimado por uma doença nova – a covid-19 – e, a
despeito desse tétrico quadro, um número crescente de pessoas evitando o uso da
vacina. Em janeiro de 2021, indígenas da etnia kokama, da cidade de Santo
Antônio do Içá, no Amazonas, estavam se recusando a tomar vacinas por
influência de pastores evangélicos da Igreja Mundial do Poder de Deus e da
Igreja Internacional da Graça de Deus que diziam que os imunizantes
continham “chip” com a marca da “Besta”![1]
Obviamente que nem todo cristão é
defensor de tal aberração. A recusa ao uso de vacinas foi tão evidente entre
grupos de pessoas que apresentam justificativas religiosas que um grupo
intitulado “Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito” lançou um vídeo,
disponível na plataforma do Youtube, se viu na obrigação de desmentir tais “pregações”.[2] O pastor e teólogo Ariovaldo Ramos discorreu
sobre esse assunto, mostrando que em algumas situações citadas na Bíblia, o
povo crente em Deus buscou alguma forma de imunização contra doenças (como no
caso das pragas contra o Egito). Portanto, a princípio, não existe motivo
religioso para a recusa do uso de imunizantes como a vacina.
De igual forma não existe razão para
que o cristão seja contrário à Ciência. Quando Deus criou o homem, de acordo
com o que a Bíblia narra, deu a ele o domínio sobre tudo o que vive sobre a
Terra, sejam animais, vegetais ou minerais. Ora, tal domínio só pode ser
exercido por meio do uso da inteligência e do conhecimento das coisas. Eis a
base das Ciências, o conhecimento de objetos de estudo. Quando Deus atendeu ao
pedido de Salomão para que tivesse sabedoria, foi dito que aquele rei, por meio
da graça divina, “Descreveu as plantas, desde o cedro do Líbano até o hissopo
que brota nos muros. Também discorreu sobre os quadrúpedes, as aves, os animais
que se movem rente ao chão e os peixes” (1 Rs. 4.33). Ora, não é esse o
trabalho de um cientista?
O apóstolo Paulo, homem de estudo e
de Ciência, orientava a todo cristão para que “examinasse tudo” e “retivesse o
bem” (1 Ts. 5.21). Examinar significa observar com atenção, investigar
minuciosamente. Trabalho de cientista, sem dúvida. Certamente, alguém irá
argumentar: “Mas o mesmo apóstolo disse que a sabedoria do homem é loucura para
Deus” (1 Co. 3-19). Em resposta, o que se pode dizer para essa pessoa é que
leia o texto e o contexto e pare de criar pretexto. Toda a discussão de Paulo
nesse capítulo e versículo está calcada nas divisões da Igreja que ocorriam
naquele momento porque – como seria bom se os “cristãos” tivessem aprendido
essa lição – as pessoas estavam seguindo os seres humanos (como Paulo e Apolo)
e não a Deus. O apóstolo, então, argumenta que por mais sábio que a pessoa seja
(ele mesmo se autoproclama como sábio construtor no versículo 10), nenhuma
sabedoria humana pode ultrapassar a inteligência de Deus. A mensagem, portanto,
em suma é: não seja arrogante, pois em comparação com Deus a sua sabedoria
humana não é nada.
A intolerância religiosa, indicativo
de fanatismo, é outra ação que não se coaduna com o cristianismo de fato.
Primeiro, porque fere o princípio do direito do ser humano a sua própria
escolha, algo que está implícito na própria criação. Afinal, mesmo cobrando as
consequências dos atos humanos, Deus sempre deixou sua criatura livre para a
escolha. Porém, grupos religiosos se colocam como “justiceiros” de Deus e
aprontam coisas terríveis. O Brasil foi denunciado na ONU por indígenas que
reclamaram da ação de grupos evangélicos que queimaram as casas de reza do
Guarani-Kaiowá.[3]
Seria cansativo aqui listar as casas e terreiros de Umbanda e Candomblé que
foram vandalizadas e destruídas nos últimos anos por fundamentalistas
religiosos pertencentes a denominações “cristãs”.
Mas qual é o exemplo deixado por
Cristo? No Evangelho de Lucas, capítulo 9, os discípulos de Jesus não foram
recebidos num povoado samaritano por questões de diferença religiosa. Como os
samaritanos perceberam que Jesus e seus discípulos se dirigiam a Jerusalém,
para cumprir seus propósitos religiosos no Templo, não quiseram dar-lhes
guarida. Tiago e João não se contiveram e perguntaram ao Mestre se ele desejava
destruí-los com “fogo do céu”, ao que Jesus respondeu: "Vocês não sabem de
que espécie de espírito vocês são, pois o Filho do homem não veio para destruir
a vida dos homens, mas para salvá-los" (Lc. 9.55).
É esse o cristianismo que faz falta
nos tempos de hoje, o verdadeiro sal da Terra.
Carlos
Carvalho Cavalheiro
31.01.2023
[1] https://cultura.uol.com.br/noticias/16111_pastores-evangelicos-estao-influenciado-indigenas-a-nao-tomarem-vacina-contra-a-covid-19-conta-lideranca.html
[2] https://www.youtube.com/watch?v=C5YNV2sY8GQ
[3] https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2022/03/10/na-onu-brasil-e-denunciado-por-ofensiva-de-evangelicos-contra-indigenas.htm
sábado, 4 de setembro de 2021
O cristão e o armamento
A mensagem de Jesus Cristo é a do amor. Um amor tão extremado que deveria abarcar até mesmo os nossos inimigos. Jesus disse claramente que deveríamos amar nossos inimigos e fazer o bem aos que nos odiassem (Mt. 5.39 – 42; Lc. 6.27). Em momento algum Jesus insuflou seus discípulos a se armarem, muito menos para uma “guerra santa” ou “espiritual”.
Aliás, o conceito é contraditório:
se a guerra é espiritual, por que a necessidade de armamentos? Infelizmente,
muitos que se dizem cristãos defendem hoje em dia o uso de armas para defesa da
fé e, o que é ainda mais estarrecedor, para se defender dos inimigos!
Bom, sobre a necessidade de se
“defender” dos inimigos, talvez falte um pouco do conhecimento da Palavra ou
mesmo fé naquilo que está escrito. Porque, conforme o que se pode ler na
Bíblia, especificamente em 1 Jo 5.18, a mensagem diz: “Sabemos que todo aquele
que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si
mesmo, e o maligno não lhe toca”. Esse é um ensinamento que vem desde o Antigo
Testamento, qual seja, aquele que anda com Deus (ou, em outras palavras, segue
os seus preceitos) não deve temer inimigo algum. Em Is 54.17 lê-se: “nenhuma
arma forjada contra você prevalecerá, e você refutará toda língua que a acusar.
Esta é a herança dos servos do Senhor, e esta é a defesa que faço do nome
deles", declara o Senhor”.
Também no livro dos Salmos (91.10 –
12) encontra-se a seguinte mensagem: “Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma
chegará à tua tenda. Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te
guardarem em todos os teus caminhos. Eles te sustentarão nas suas mãos, para
que não tropeces com o teu pé em pedra”.
Há quem possa argumentar que Jesus
ordenou a seus discípulos, nas últimas horas antes de ser preso, para que
vendessem a capa para comprar uma espada, conforme o texto de Lc. 22.35 – 38. É
admissível que o texto é controverso e deu origem a diversas exegeses. Porém,
se analisarmos detidamente todo o contexto, há uma explicação plausível.
O texto completo é este: “E
disse-lhes: Quando vos mandei sem bolsa, alforje, ou alparcas, faltou-vos porventura
alguma coisa? Eles responderam: Nada.
Disse-lhes
pois: Mas agora, aquele que tiver bolsa, tome-a, como também o alforje; e, o
que não tem espada, venda a sua capa e compre-a; Porquanto vos digo que importa
que em mim se cumpra aquilo que está escrito: E com os malfeitores foi contado.
Porque o que está escrito de mim terá cumprimento. E eles disseram: Senhor, eis
aqui duas espadas. E ele lhes disse: Basta”.
Há outras hermenêuticas sobre esse
trecho apontando para uma previsão sobre a perseguição que os cristãos
sofreriam. Mas, nenhuma delas pensa ser literal o pedido de Jesus para que os
apóstolos se armassem. Seria ridículo pensar que o Filho de Deus – conforme o
entendimento dos próprios cristãos – se sentisse seguro com a presença de duas
espadas em seu grupo de onze seguidores!
Porém, há um detalhe na fala de
Jesus que chama a atenção. Ele cita o profeta Isaías para dizer que o Messias
deveria ser contado entre os malfeitores (Is 53.12). Ora, se o grupo de apóstolos
estivesse desarmado quando da chegada dos soldados do Templo, Jesus não poderia
ser “contado entre os criminosos ou malfeitores”, pois aqueles que andavam
armados, sem serem soldados, eram tidos por bandoleiros. Aliás, civis armados
de fato representam perigo em qualquer tempo.
A providência das espadas, portanto,
parece que tinha por finalidade o cumprimento da profecia de Isaías. Ao menos
foi assim que Jesus se manifestou. Entender essa passagem de maneira diferente
significa criar outro problema logo adiante. Isso porque, o próprio Jesus disse
ao seu apóstolo que se utilizou da espada para tentar reprimir os soldados:
“Guarda a tua espada no seu lugar, pois todos os que pegam a espada pela espada
perecerão. Ou pensas tu que eu não poderia apelar para o meu Pai, para que Ele
pusesse à minha disposição, agora mesmo, mais de doze legiões de anjos?” (Mt.
26.52).
E o que dizer de Davi e Josué,
heróis da Bíblia e que lutaram com suas armas contra os inimigos de Israel? É
preciso entender o contexto e o período das Alianças de Deus para com os
homens. Na época do Antigo Testamento, havia a necessidade de que as promessas
de Deus se cumprissem de modo a que o povo de Israel se mantivesse fiel, porque
desse povo nasceria o Messias. No entanto, para quem insiste em permanecer
voltado para a aliança do Antigo Testamento, deverá conhecer o que diz o livro
de Hebreus: “Contudo, agora, Jesus recebeu um ministério ainda mais excelente
que o dos sacerdotes, assim como também a aliança da qual Ele é o mediador;
aliança muito superior à antiga, pois que é fundamentada em promessas excelsas”
(Hb 8.6).
A escolha do verdadeiro cristão deve
ser pela nova aliança, aquela que estabeleceu o amor como maior mandamento.
04.09.2021
Carlos Carvalho Cavalheiro
domingo, 3 de janeiro de 2021
O cristão e o conservadorismo
Tornou-se até lugar comum ouvir a
frase: “Sou cristão conservador”. O que realmente essa sentença quer dizer?
Aparentemente, é o “cristão” que defende a preservação das instituições
tradicionais da sociedade. A reboque, esse conservadorismo carrega também a
defesa do capitalismo, da exploração dos trabalhadores, da manutenção das
divisões sociais (ricos e pobres), da hierarquização burguesa, ou seja, aquela
calcada na valorização dos indivíduos a partir de questões financeiras, do desprezo a outras formas de pensar, da intolerância religiosa.
Para manter esse status quo algumas denominações e grupos
que se consideram cristãos têm se aproximado de governos autoritários, excludentes,
com um verniz de fascismo. O mesmo lema dos fascistas integralistas (Deus,
Pátria e Família) tem sido absorvido nos discursos desses “cristãos conservadores”.
A intolerância religiosa, por questões de gênero, etnia ou classe social têm
recebido uma “justificativa” supostamente cristã. Estabelece-se quase que uma
cruzada religiosa entre os “bons” e os “maus”. Mas, o cristão deve optar pelo
conservadorismo? Cristo era conservador? Cristo era intolerante?
Desde o seu nascimento, Cristo não
fez distinção de pessoas de outra vertente religiosa. Enquanto os judeus
tradicionais – os conservadores da época – não o reconheciam como o Messias
nascido, os pobres (pastores) e os “pagãos” (Magos) vieram adorá-Lo. Diz o
texto bíblico: “E, tendo
nascido Jesus em Belém de Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos
vieram do oriente a Jerusalém,
Dizendo: Onde está aquele que é nascido rei dos judeus?
porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos a adorá-lo” (Mt 2.1,2).
Logo a seguir, o texto esclarece: “E, tendo eles ouvido o rei, partiram; e eis que a estrela, que tinham
visto no oriente, ia adiante deles, até que, chegando, se deteve sobre o lugar
onde estava o menino. E, vendo eles a estrela, regoziram-se muito com
grande alegria.
E, entrando na casa, acharam o menino com Maria sua mãe e,
prostrando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, ofertaram-lhe dádivas:
ouro, incenso e mirra” (Mt 2.9-11).
Magos do Oriente eram sábios – não judeus
– provavelmente da Pérsia e que acreditavam nos sinais da natureza,
especialmente em astros. Não foram sacerdotes judeus, nem fariseus ou saduceus,
os que reconheceram a divindade de Cristo primeiro. Antes, povos que se
dedicavam ao estudo dos astros, dos sinais da natureza, da magia (eram Magos!).
Jesus respeitava os samaritanos,
povo desprezado pelos judeus “conservadores” por questões étnicas, religiosas e
costumes. Diz O. S. Boyer, em sua “Pequena Enciclopédia Bíblica” que “quando as
dez tribos [do reino de Israel] foram transportadas para o cativeiro na
Assíria, milhares dos pobres ficaram na terra. Sargom II, rei da Assíria,
trouxe gente de Babilônia, de Cuta, de Ava, de Hamate e de Sefarvaim, para colonizar
o país, 2 Rs 17,24. Isso resultou numa raça mestiça, Ed 4,2 com vv. 9, 10.
[...] Os samaritanos baseavam sua religião somente no Pentateuco, rejeitando o
resto do Antigo Testamento. Observavam o sábado, as festas, a circuncisão”
(BOYER, 1997, p. 562).
Apesar dos judeus “conservadores”
não se darem bem com os samaritanos, por diversas vezes Jesus enalteceu alguns
deles por sua conduta. Assim foi com o único leproso, dentre dez outros, que
curado voltou para agradecer, conforme Lc 17.16. Esse era samaritano. Também,
na parábola do samaritano, o único a acudir o homem ferido foi um samaritano. A
mulher samaritana do poço foi uma das que creu em Jesus (Jo 4.1-42).
Jesus não era intolerante quanto à
religião alheia. Quando Tiago e João pediram a destruição de uma aldeia
samaritana, com “fogo do céu para consumi-la”, por sua população não ter sido
hospitaleira, Jesus repreendeu os seus discípulos (Lc 9.52-55). Jesus também
permitiu que uma mulher siro-fenícia recebesse a sua cura devido a sua fé.
Mesmo sendo de um grupo religioso diferente, a mulher foi abençoada (Mc
7.24-30).
Jesus também não se deixava levar
por outras questões de ordem social ou de costumes. Não condenou a adúltera
(embora pedisse a ela para não mais continuar em seu pecado), conforme Jo
8.3-11. Ao contrário dos outros judeus “conservadores”, Jesus não desprezava a
mulher. Entre as pessoas mais próximas dele estavam mulheres como Maria
Madalena, Marta e Maria, irmãs de Lázaro, dentre outras. Jesus recebeu a mulher
pecadora (Lc 7.36-50), conversou (e, portanto, de certa forma, escolheu) a
mulher samaritana do poço...
Não fez distinção entre homens e
mulheres, não era misógino e nem machista (embora esses conceitos sejam mais
apropriados para a nossa época, sendo até anacronismo conduzi-los ao primeiro
século). Os termos aqui usados são referenciais, para facilitar o entendimento.
O que se quer dizer é que Jesus não estabeleceu diferença e desigualdade entre mulheres
e homens, como era o costume da época. O status
quo daquele momento histórico.
Não condenou nem mesmo as
prostitutas. Ao contrário, as colocou acima dos “conservadores” fariseus: “Em verdade vos digo que os publicanos e as prostitutas
vos precedem no Reino de Deus. Porque João veio a vós no caminho da justiça, e
não crestes nele, mas os cobradores de impostos e as prostitutas nele creram;
vós, porém, vendo isto, nem depois vos arrependestes para crer nele” (Mt
21.31-32).
O que Jesus
condenava mesmo era a hipocrisia, o “farisaísmo” das aparências (sepulcro
caiado, em Mt 23.25-28), do cumprimento vazio dos ritos (pagam o dízimo e
deixam de lado os ensinamentos importantes da Lei como a justiça, a
misericórdia e a fidelidade, em Mt 23.23), dos que exploram a fé em troca
do enriquecimento (os vendilhões do Templo, em Jo 2.13).
Ao contrário
de ser conservador, Jesus foi alguém que veio revolucionar os costumes. Tanto
que os “conservadores” de sua época o acusavam de ser amigo de pecadores: “Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizeis:
Eis aí um homem comilão e bebedor de vinho, amigo dos publicanos e pecadores” (Lc 7.34).
Em verdade, foi o conservadorismo da
época que crucificou Jesus.
Carlos
Carvalho Cavalheiro
03.01.2021
quinta-feira, 24 de setembro de 2020
O cristão e o comunismo
Comunismo tornou-se uma palavra usada
indiscriminadamente pelo vulgo sem que se tenha, ao menos, um conhecimento
básico do seu significado. À beira da imposição de uma política voltada para o
fundamentalismo cristão, aliado a um discurso liberal, mas permeado por outro
lado de um extremo conservadorismo reacionário, a palavra “comunismo” emerge
revestida do manto do “mal”. Sei que a mescla de todas essas ideologias é
esdrúxula (afinal, como pode alguém ser liberal na economia, conservador
reacionário nas questões sociais e de âmbito do comportamento e autoritário –
um eufemismo para ditatorial – nas questões políticas?), mas não fui eu quem
criou essa aberração incongruente.
O projeto de poder da atualidade
juntou diversas migalhas e elas foram encontrando alguma interface para a
costura. Parece uma colcha de retalhos octogonais, em que se junta uma face a
outra, mas sempre ficam algumas partes “descoladas”. Então, setores que se autodenominam “cristãos”
se juntaram a outros que se dizem “militares”, que por sua vez estão ligados a
grupos “monarquistas”, que também se ligam a extremistas de direita, que acabam
se encontrando com conservadores frustrados, que necessitam da ajuda de
liberais de centro-direita e por aí vai. O resultado é que alguns discursos se
sobressaem, de acordo com a situação, e outros se espalham de um grupo para
outro.
Dos que se dizem “cristãos” (mas são
extremamente conservadores e até reacionários), o anticomunismo alcançou
novamente o púlpito das pregações. Dentre os católicos, destaco trecho de
artigo publicado em 2018 por Dom Bertrand de Orleans e Bragança, da família
real brasileira e membro do Instituto Plínio Correia, ligado ao movimento TFP
(Tradição, Família e Propriedade), e que critica cinco anos do pontificado do
Papa Francisco: “Alguns agem como avestruz para não enfrentar o problema,
respondendo levianamente: “É preferível errar com Francisco a acertar
contra ele”. Outros sustentam que essa simplificação é errônea, pois, como
ensina o Evangelho, “deve-se obedecer antes a Deus que aos homens (At
5, 29).” E afirmam ser legítima a resistência dos fiéis à autoridade
eclesiástica, e até mesmo à do Sumo Pontífice, em situações análogas à que
moveu o Apóstolo Paulo a resistir a São Pedro, o primeiro Papa (Gal. 2,11). No
livro recentemente lançado, o autor apresenta uma visão de conjunto dos
catastróficos cinco anos do Pontificado de Francisco e propõe uma medida
prática de resistência, outrora sugerida por Plinio Corrêa de Oliveira aos
dirigentes da TFP chilena como solução ao drama que viviam os católicos, pelo
apoio de seu episcopado ao regime comunista de Salvador Allende: interromper a
convivência habitual com os Pastores demolidores, para que tal convivência não
acarretasse risco próximo para a fé e grave escândalo para os bons”.
Dos setores “evangélicos” (parece que
o termo “cristão” está fora de moda. Ao menos aqui, encontramos alguma
coerência no uso do nome), um vídeo disseminado na internet mostra um pastor
vociferando contra o “demônio comunista”, afirmando ser Deus contra o comunismo
e citando que no final dos tempos tudo ficaria claro quando o Divino Julgador
diria aos comunistas: “Apartai-vos de mim, malditos praticantes do mal!”.
O que o pastor talvez não se recorde –
ou tenha escondido de seus ouvintes – é que a citação pode se referir ao trecho
de Mateus (7.21 e seguintes), o qual diz literalmente (aqui, incluindo o
contexto): “Mt 7.21 - 23Nem
todo aquele que diz a mim: ‘Senhor, Senhor!’ entrará no Reino dos céus, mas
somente o que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos dirão a mim
naquele dia: ‘Senhor, Senhor! Não temos nós profetizado em teu nome? Em teu
nome não expulsamos demônios? E, em teu nome, não realizamos muitos
milagres?’ Então
lhes declararei: Nunca os conheci. Afastai-vos da minha presença, vós que
praticais o mal”.
Em outras palavras, a condenação aqui
não é contra o comunismo, mas sim contra falsas lideranças religiosas, as quais
enganam e manipulam os fiéis, servindo de pedra de tropeço para que possam, de
fato, seguir os mandamentos de Deus.
Mas, afinal, o que é comunismo? Essa
pergunta é importante, pois o cristão deve saber se realmente essa ideologia
está ou não de acordo com os desígnios de Deus. Bom, a princípio, Deus não se
envolve em questões de política. Não há, por exemplo, alguma condenação de
Jesus sobre o governo autoritário e pagão dos romanos, por exemplo. Ao
contrário, Jesus disse: Dize-nos, pois, que te parece? É lícito pagar o tributo
a César, ou não? Jesus, porém, conhecendo a sua malícia, disse: Por que me
experimentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do tributo. E eles lhe
apresentaram um dinheiro. E ele diz-lhes: De quem é esta efígie e esta
inscrição?
Dizem-lhe eles: De César. Então ele lhes disse: Dai, pois a César o que é de
César, e a Deus o que é de Deus. E eles, ouvindo isto, maravilharam-se, e,
deixando-o, se retiraram (Mt. 22.17-22).
Qual o sentido das palavras de Jesus? Ora, o cristão vive neste mundo e cumpre suas obrigações para com ele. Mas deve se lembrar que pertence também ao mundo de Deus e, assim, também tem suas obrigações a cumprir. Com isso, as atenções e cuidados de Deus não estão voltadas a mudanças de governo ou ideologias. Isso é da alçada humana, o que, também, não significa que o cristão deva aceitar tudo. A adoração de deuses pagãos, por exemplo, sempre foi condenada pelos cristãos que não a obedeceram. Mas nenhum cristão, baseado nas Escrituras, se levantou contra o governo de qualquer imperador romano.
As revoltas que ocorreram contra Roma
na Palestina foram promovidas por judeus, não por cristãos. Esse é um ponto
crucial: Deus não chama cristãos para combater ideologias políticas e nem
religiosas. “Guerras santas”, destruição de templos e igrejas, assassinato de
pessoas por questões relativas ao pensamento, não têm base bíblica para os
cristãos. Aquele que se diz “cristão” (ou evangélico, se preferir) e participa
da destruição de imagens católicas ou de terreiros de umbanda e candomblé
precisa se colocar no lugar de Paulo diante dos santuários de Atenas (At. 17.16-34).
Mas a pergunta ainda não foi
respondida: O que é comunismo? De maneira bastante simples, comunismo é uma
forma de pensar a sociedade organizada de maneira igualitária, com a
propriedade coletiva (de todos) dos meios de produção, sem classes sociais (nem
ricos e nem pobres, nem nobres e nem plebeus). Também chamado de socialismo,
essa ideia faz parte da história da humanidade. Desde a Antiguidade se pensou
na possibilidade da existência de uma sociedade sem exploração e na qual não
houvesse diferenças econômicas entre as pessoas.
No século XIX esse pensamento foi
aperfeiçoado pelo filósofo Karl Marx, que estabeleceu uma leitura histórica do
comunismo e lançou uma teoria que ficou conhecida como comunismo científico ou
marxismo.
Alguns governos, como a Rússia a
partir de 1917, tiveram experiências socialistas e comunistas. Infelizmente, o
modelo implantado na maioria dos países comunistas traiu seus princípios de uma
sociedade igualitária, criando uma elite política associada a um governo
ditatorial.
Porém, enquanto ideia, o comunismo não
é “do mal” e nem “do bem”. Esse maniqueísmo não serve como “óculos” para a
leitura dos fatos. É uma maneira muito simplista e ingênua de ver as coisas.
Ademais, em países como o Brasil, o comunismo nunca chegou a ser implantado.
Antes disso, precisaríamos transcender as estruturas arcaicas que ainda
sustentam a nossa sociedade, fruto do colonialismo, como a estrutura agrária do
país (que ainda se sustêm por meio de latifúndios), a extrema divisão social, o
racismo (legado da escravidão) e tantos outros. Para se ter uma ideia, para o
desenvolvimento do capitalismo seria necessária a reforma agrária. Nenhum país
desenvolvido – em termos de capitalismo – deixou de fazer a reforma agrária. Os
Estados Unidos, por exemplo, fizeram uma Guerra civil (Guerra de Secessão, de
1861 a 1865) para combater o escravismo e o latifúndio que impediam o desenvolvimento
do capitalismo.
O comunismo é o avesso do capitalismo.
Portanto, só pode haver comunismo onde antes se desenvolveu o capitalismo e
esse não é o caso do Brasil.
Por outro lado, as bases do
socialismo/comunismo, quais sejam, a divisão dos produtos da sociedade para
promover uma organização igualitária, o fim da propriedade privada, e a
inexistência de classes sociais (ou as desigualdades promovidas por essa
divisão), estão presentes nas primeiras comunidades cristãs. Diz o livro de
Atos dos Apóstolos sobre os primeiros grupos cristãos: “Não havia uma só pessoa
necessitada entre eles, pois os que possuíam terras ou casas as vendiam,
traziam o dinheiro da venda e o depositavam aos pés
dos apóstolos, que por sua vez, o repartiam conforme a necessidade de cada um.
(At. 4.34 – 35). E, antes, Jesus já afirmara ao jovem rico: “Se você quer ser perfeito, vá, venda os seus bens e dê o dinheiro
aos pobres, e você terá um tesouro nos céus. Depois, venha e siga-me” (Mt.
19.21).
terça-feira, 5 de maio de 2020
O cristão e a tortura

Há algum tempo li em uma publicação na internet alguém que se dizia cristão justificando a defesa da tortura com o seguinte argumento de que foi a tortura que revelou Cristo como Salvador da humanidade, pois se não tivesse sido torturado, nós não teríamos o sacrifício vicário da cruz!
Bem, é preciso deixar bastante claro que Jesus não foi protagonista da tortura e sim vítima dela. Sendo, portanto, vítima de tortura seria inconcebível que Jesus fosse defensor desse tipo de ação. Aliás, a tortura foi promovida pelos romanos, povo pagão, e incentivada pelos fariseus, grupo judaico que foi duramente criticado por Jesus por sua hipocrisia e por se mancomunar com o governo interventor de Roma. Assim, defensor da tortura não tem relação alguma com Cristo.
O apóstolo João em seu Evangelho relata que durante o interrogatório diante dos sacerdotes Jesus recebe uma bofetada de um guarda do Sumo Sacerdote, ao que o Salvador responde: “Se falei mal, testemunha sobre o mal; mas, se falei bem, por que me bates?” (Jo 18.23) . Somente este trecho deixaria claro que Jesus é contra a tortura. Ao contrário, Ele se mostra a favor do debate de ideias (“Se falei mal, testemunha sobre o mal...), condenando a agressão física em qualquer circunstância.
Ora, aqueles que defendem a tortura não podem se chamar de cristãos. Aqueles que defendem os torturadores, também não. Muito menos aqueles que apoiam os que defendem a aplicação de meios violentos, incluindo a tortura, contra quem quer que seja, mesmo os seus inimigos.
Mateus diz que Jesus se dirigiu aos seus discípulos e disse: “Eis que estamos subindo a Jerusalém e o Filho do Homem será entregue aos chefes dos sacerdotes e escribas. Eles o condenarão à morte e o entregarão para ser escarnecido, açoitado e crucificado. As no terceiro dia ressuscitará” (Mt 20.18 -19). O uso do “mas” ao final do texto denota justamente a oposição. Em Língua Portuguesa, mas é uma conjunção adversativa, ou seja, expressa uma ideia adversa ou contrária ao que vinha sendo dito anteriormente no texto. Jesus diz que será açoitado, escarnecido e crucificado, MAS, ao final ressuscitará, o que equivale dizer que vencerá tudo aquilo. Essa ideia se adere a outra passagem em que Cristo diz: “Tenho-vos dito isso, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (Jo 16.33).
Em suma, Jesus não defendeu jamais a tortura e as tribulações ou tormentos. Ao contrário, Ele diz que essas coisas são próprias do “mundo”, ou seja, das coisas que não são espirituais. É assim que, em geral, essa palavra se apresenta no Evangelho de João: “Mas Ele seguiu dizendo-lhes: “Vós sois daqui de baixo; Eu Sou lá de cima. Vós sois deste mundo; Eu deste mundo não sou” (Jo 8.23), “O mundo não pode odiar-vos, mas odeia a mim, pois Eu dou testemunho de que suas obras são más” (Jo 7.7), “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a mim.
Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia” (Jo 15:18,19).
Ao contrário da tortura, Jesus afirmou que o seu mandamento maior era o do amor: “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor. Tenho-vos dito isto, para que o meu gozo permaneça em vós, e o vosso gozo seja completo. O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei" (Jo 15:10-12).
Mas defendemos a tortura apenas aos criminosos! Pois, então. Primeiramente é preciso entender que uma pessoa só pode ser considerada criminosa depois de condenada legalmente. Se já foi condenada e a tortura não faz parte da punição, por que, então, torturar? Por outro lado, e aqui vem a segunda questão, nem sempre quem é acusado é de fato criminoso. Jesus foi condenado e tratado como criminoso e Barrabás, que era de fato homicida, foi absolvido! (Mt 27.20). Jesus foi crucificado ao lado de dois ladrões e para um deles disse: “Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23.43).
Por isso, talvez, Jesus tenha advertido para que não julgássemos as outras pessoas: “Não julgueis, para que não sejais julgados.
Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós” (Mateus 7.1,2).
Portanto, defender a tortura, a quem quer que seja, antes de ser um ato de “justiça” é, do ponto de vista cristão um julgamento e uma condenação o que não se coaduna com os ensinamentos de Cristo.
“Estive preso e não me visitastes”... Aos que assim agiram, Jesus dirá: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo...” (Mt 25.41).
Atenção, portanto, quando você, que se diz cristão, defende a tortura ou mesmo apoia aqueles que a defendem.
05.05.2020

